REFLEXÃO

O TRABALHO E O SINDICALISMO NA PÓS-MODERNIDADE

sexta-feira, 10/03/17 13:41

Vivemos no Brasil e no SINJUS-MG épocas de reformas e de novas eleições, respectivamente. Nada mais oportuno para reflexões que nos orientem por caminhos e escolhas de maior amplitude, em continuidade com os ambientes mais amplificados por que passa toda a sociedade ocidental.

Vou valer-me, nesse texto, de conceitos hoje sobejamente explorados, advindos de uma sensata interpretação posta à luz por Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, morto agora, em janeiro passado, aos 89 anos.

O texto faz referência a três conceitos, entre outros, trabalhados por Bauman: o de pós-modernidade, o de trabalho e, como consequência, o de sindicalismo na era pós-moderna que nos envolve.

O conceito de pós-modernidade ou “modernidade líquida” é pano de fundo para os demais e para outros, com implicações de valor para todo o mundo que ora vivemos, os segmentos de valor na existência humana: o amor, o trabalho, as relações sociais, a esperança, o outro, o futuro, a felicidade etc.

Trata-se, a meu ver, como filósofo naquelas horas de maior sentido em minha vida, de uma visão interpretativa adequada para um mundo que se desarticulou, sem que nada até hoje, após a desconstrução pós-iluminista do século XVIII, o repusesse nos trilhos.

Refiro-me a Nietzsche, Marx, Freud e Heidegger, sobretudo.

O que nos diz Bauman: todos os padrões de relacionamento que supõem dependência ou inclusão se derreteram. Como se estivessem sendo desmantelados pela falta de referência, pela impossibilidade de se guiar com segurança ao longo da vida pós-moderna. O que resulta em uma conduta das pessoas que é absolutamente individual: a tarefa de encontrar um caminho a seguir, a responsabilidade de autoconstrução, de criação de si mesmo. Ou seja, uma pós-modernidade em que imperam o individual e o privado. Ambos, sem garantia de onde chegar.

Nesse cenário, a incerteza individualiza a vida e desvaloriza a solidariedade, a formação de laços para a construção de um futuro a longo prazo.

Aqui se pode antever qual o conceito pós-moderno de trabalho.

Até pouco tempo, o trabalho era a certeza de estarmos construindo o futuro, algo em comum que se somava para o bem de toda a sociedade.

A pós-modernidade rompe com essa certeza. Primeiro, possibilitando ao capital não fixar-se em nenhum lugar, o que desarticula qualquer formação social de alguma força solidária.

Tal circunstância está por trás dos fenômenos da desregulamentação e da terceirização acriteriosa, com a reação trabalhista da “pejotização”, como meio de sobrevivência individual.

Qual a resultante principal?  O desmantelamento do interesse pela militância sindical.

O trabalho se precariza a tal ponto que sua resposta aos movimentos do capital neoliberal é a passividade, o desengajamento e a não percepção das possibilidades de qualquer ação coletiva.

E os governos?

Diferentemente da postura arquitetada por Keynes, adaptam-se aos movimentos do capital neoliberal. Supera-se a constituição do “estado-nação” e do estado provedor de certeza quanto aos direitos e à sobrevida dos cidadãos, cooptados ou sobreviventes aos movimentos do capital.

As consequências: as inseguranças da pós-modernidade, do valor da vida em si, da solução (ou não) que poderá vir da batalha individual, do desemprego ou do trabalho temporário e das incertezas da velhice. Ao cabo, das ansiedades do presente.

O próprio comprometimento solidário, que daria forma a um futuro melhor tornou-se atomizado, em atitudes individuais típicas de quem vive na incerteza. O trabalho não é mais um projeto, mas uma oportunidade precária, que se aproveita ao sabor do capital volátil. A incerteza, por mais estranho que pareça, tornou-se uma força individual para “safar-se”, desvalorizando a solidariedade.

Daí a imperiosidade de novo foco na militância sindical, no sentido de sua ampliação para além do mundo restrito dos “guetos” trabalhistas, mas na reestruturação de governos e comunidades, que tomem consciência da urgência de sua reestruturação e refazimento dos valores pré-modernos.

Como? Ainda não há a nova resposta. Mas, certamente ela virá da criatividade na luta.

José Moreira Magalhães

É economista, com especialização em Planejamento Governamental; consultor em orçamento e finanças; e fiscal de tributos estaduais. Foi diretor de arrecadação, diretor do Tesouro Estadual e Diretor Financeiro do TJMG. Autor do livro "Desvendando as Finanças Públicas".

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