O MUNDO DO TRABALHO EM 2017 E O ASSÉDIO MORAL

segunda-feira, 18/12/17 12:09

Estamos vivendo na carne, em 2017, a revolução neoliberal. O capital financeiro se organiza enquanto classe dominante, a mídia vira partido político influenciando decisões do legislativo, executivo e judiciário. Marx afirmava que a burguesia era o comitê gestor do capitalismo, atualmente a mídia é o comitê gestor da política e da economia brasileira, com suas meias verdades repetidas até virarem “verdades” absolutas dominando as mentes da população. Com a perda de direitos trabalhistas, o assédio moral e a violência no trabalho vai proliferar. Mas o alvo principal agora é o Serviço Público, como mandam os manuais neoliberais: as mesmas frases, o mesmo discurso, o mesmo procedimento de quando fizeram a privatização dos bancos e das universidades: modernizar, produzir, agilizar, celeridade e produtividade. E já está sendo votado o fim da estabilidade no serviço público que vai ser confrontada com o sistema de metas, um dos fatores de assédio moral, sofrimento e adoecimento no trabalho.

A luta contra o assédio moral significa combater o autoritarismo e defender a dignidade da pessoa humana, valor primordial da constituição de 1988. Temos de contra-atacar este projeto neoliberal de exclusão, de violência moral, social e econômica, com organização, liderança e participação de todos nós trabalhadores, seja da iniciativa privada ou do serviço público.

O sindicato será nosso “bunker”. Não temos mais opções. Estamos em guerra. Lutamos para sobreviver com saúde e dignidade e garantir direitos, para nós, nossos filhos e filhas. Temos que ter o direito de trabalhar sem adoecer, sem ser vítima de assédio moral. Temos que defender o serviço público enquanto necessário a nós cidadãos e não aos interesses empresariais e comerciais. Temos que manter o concurso público, dizendo não ao nepotismo e ao clientelismo. Somos contra a competição destrutiva de uma política de metas e produtividade impossível de ser cumprida, onde não há o olhar do trabalhador, mas as ordens dos tecnocratas, onde números são mais importantes que pessoas.

A competição leva ao individualismo. O outro é visto como ameaça. O sofrimento de quem trabalha e não suporta mais as cobranças excessivas não se materializa nos índices de absenteísmo. Por medo, as pessoas trabalham adoecidas, com atestado médico no bolso, por isso temos que ter a Saúde do Trabalhador e o Combate ao Assédio Moral como luta política em prol do direito de trabalhar sem adoecer. Afinal, transtorno mental e emocional não se mede por aparelhos. Daí a importância da prevenção contra o assédio moral, o autoritarismo das chefias, a obsessão por metas e produtividade que nunca poderão ser cumpridas, pelo excesso de processos que entram diariamente, 24 horas por dia no sistema eletrônico, além dos processos em análise, que criam uma sensação de não estar dando conta, introjetando via captura da subjetividade do servidor os problemas da instituição. O que adoece psíquica e emocionalmente é a impotência de reagir frente a humilhação, a discriminação, o tratamento diferenciado, reagir contra a injustiça de quem trabalha na justiça. Sofrendo com cobranças, gritos, ameaças de chefias despreparadas, as quais usam o cargo como forma de exercer poder e domínio.

O toyotismo no serviço público captura a subjetividade do servidor, assim, o problema do Tribunal e do juiz vira o problema dos assistentes e dos servidores, exaustos de tanto trabalhar, sempre cobrados para aumentar as metas já que cada secretaria compete com outra, nesta competição por metas e produtividade. Temos que dizer não ao autoritarismo, à cobrança abusiva e doentia por mais produtividade; não à perseguição, não à injustiça. Tudo isso acontece e perpassa pela organização do trabalho e seus prepostos.

Como querer um serviço público eficiente se a proposta de emenda constitucional, a PEC 241 ou PEC 55, a PEC DAS MALDADES, congela gastos públicos por 20 anos. Cria-se um sistema perverso de adoecimento no trabalho, pois aposentados e adoecidos não poderão ser repostos, sobrando o excesso de serviço para os colegas que entram em luta com os adoecidos, como se a culpa dos problemas fosse individual e não um processo perverso, político, econômico. Convivemos em um mundo do trabalho em que adoecer é fraqueza na ótica patronal, e não mais o desespero do corpo e mente frente ao impossível de dar conta do excesso de trabalho.

Neste momento, a saúde do trabalhador deve ser a prioridade do movimento sindical, temos que nos pautar nos valores éticos, basear na Ética e na Solidariedade, na mudança do individualismo para o coletivismo solidário. O que adianta trabalhar sob pressão, com medo, vivendo à base de ansiolíticos e antidepressivos, álcool e outras drogas lícitas ou ilícitas, esquecendo que enquanto está produtivo, tudo bem, mas quando o assédio que destrói e o incapacita como no “burnout”, remédios de nada valem, frente a dor emocional, as ideias obsessivas que podem culminar no autoextermínio.

Temos sim que transformar este mundo através de nosso processo histórico materialista dialético que é o viver em uma sociedade neoliberal, onde o que vale é o capital e não o humano. O problema do outro, meu colega de trabalho, tem de ser o meu problema. Apoiar, ser solidário, não encarar o colega como adversário, mas como amigo, ou, ao menos, como um colega, um semelhante, um ser humano no trabalho. Lembro de um caso em que a chefia encaminhava processos menos complicados para os favoritos e processos com muitos volumes para os que não são eram de sua “turma”, claro que um vai ser mais produtivo que o outro.

Lutar contra o assédio moral como modelo de gestão, contra o autoritarismo dos donos do poder associados aos políticos, que com um decreto nos reduziram a escravos do capital financeiro. E o Serviço Público é a bola da vez: “inchado, ineficiente, lento”, sem análise das condições de trabalho. O discurso hegemônico da mídia é este — contra vocês servidores públicos.

Temos, agora, que lutar por nossos direitos. E a saúde é o maior direito e bem, de cada um e de todos. Temos de lutar pela nossa sobrevivência neste ambiente de trabalho hostil, onde as cifras são mais importantes que os seres humanos. Temos que fortalecer o sindicato. Temos que ter a consciência de que sozinhos nada podemos fazer, e que nossa saúde é a maior riqueza que podemos ter.

[1]        “Toyotismo”, como o próprio nome diz, é o modelo de produção adotado pela fábrica japoneza de automóveis, a Toyota, que, na verdade, representa um modo de pensar a produção. Segundo Thomas Gounet[1], algumas características do toyotismo são: produção puxada pelo fluxo da demanda; flexibilização da organização do trabalho; desenvolvimento de relações de subcontratação. In: Fordismo e toyotismo: na civilização do automóvel. São Paulo: Boitempo, 2002.

Arthur Lobato

É psicólogo da área de saúde do trabalhador. Integra a equipe da Comissão de Assédio Moral do SINJUS-MG. Participou de Congressos Internacionais sobre o tema no Brasil, Argentina e México. Sócio colaborador da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT).

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