O BURRO DE CAL

quarta-feira, 21/12/16 15:00

Autor: Guido de Oliveira Araújo

Gincana NAP – Grupo 01, Garimpeiros de Sonhos.

 

A escurez do quarto pesava em seus olhos e com ele era uma coisa só. A noite copiava sua pele.  Virou de lado e orientou-se pelo tato na direção do calor. Sentiu a mulher e foi escorrendo a mão nela sono-lento, devagar, como desenhava a linha do horizonte com os olhos, nos tempos de trás. Primeiro obstáculo, duas colinas macias e quentes. Fluíram algumas estrelas no céu das pálpebras. Baixou mais a mão e a mulher se ajeitou, revivendo e vislembrando gozos e guizos nas suas ideias. Desceu mais, reticente, por vales, bosques e grutas, posturando acompanhamentos de violão. Foi melodia sem Dó. Foi Lá Maior! Ela gemusicava música desejante.  Acordou de vez e cavalgou algumas estrelas azuladas, aladas como borboletas entre flores amarelas. Seus dedos esfarelavam grãos de gotas nas nuvens, diamante fino e suado.  Ele, uma tocha fagulhando, explosou. Diamantes corriam nas veias e ouro, nos olhos. O céu apagou a noite nos longes de sua pele.

E teve de levantar, locomotiva com seus vagões de problemas, martelando seus dias. Comida para os meninos? Roupa para a mulher? Água para secar, cascalho para puxar, paiol para apurar. Conta para pagar. Garimpo da esperança lavrou, lavou. Nada quites com Maria Quitéria que andava com a cor do ar, em encantamento, em ardências. Mas acabou “o feitiço do lagarto, da cobra”. Seu medo clareou: tou com feitiço da Pedra. Diamante vira pedra e não desvira. Vou ao João Paulino curador, no garimpo do Palmital.

O que livra dos problemas é a solução. Qualé? Chega a mulher com a merenda: angu doce, mandioca cozida e uma manga de vez que o vento colheu. Paladarizou tudo, sentindo o “doce da manga verde”, chupado com a língua lambendo o pé do caroço. E a mulher extrovirou o pensamento. Solucionou.   Zé! Queima cal e leva pro comércio. Zé olhou o céu e a mão calejada de enxada e se encheu da nuvem verde da esperança. A solução soluçada do aperto final. Largou o carumbé, pulou fora da cata. Limpou o cabelo duro, sujo de terra. Lavou a mão na beira da pia, já quase no pó, e foi queimar cal, já levando alguns tocos de lenha, lembrança de destoca antiga esparramada pelo caminho. Quebrou as pedras calcáreas, enfornou, abafou, pôs fogo, queimou e esperou esfriar. Desenfurnou-se, desabafou-se, campeou e carregou o burro com a brancura alegre da cal virgem em dois balaios forrados com folha de bananeira e mais uma bruaca de topo. Branquejou de esperança, tocando o animal na paisagem verde da estrada. O “Cochilo” lerdava, apalpando o chão, querendo voltar, mas frustrado pelo afobo do Zé. A estradinha descia tranquila, enrolando e dando laços em buquês de paisagem.

 É. Agora morava no Espinho, quilombo imemorável, fumaçoso de tempo, terra sua de dono,  de herança sem assinatura. Mas sua gente antepassada, longínqua, tinha vindo de outro lugar,  Moçambique, mais fumaçoso ainda, de lonjuras. Tinha o nariz fino, dentes bons e saúde de diamante. Casei com a Maria, de cor vesperal, irmã da Quitéria, de cor noturnal, primeira inquietação amorosa, primeira cantada acertada e funcional. Mas a Maria é que tinha o gostoso do “doce da manga verde”, aquela primeiro a sorrir no tempo, flortifrutada. Tinha parido três vezes e ainda estava gostosa de araçá, mangaba, pequi e araticum, cheirosa de rosa, luminosa de estrela e queimando de brasa para assar espiga de milho verde ou  mandioca. Ai! Zé; você só não dá sorte no garimpo. Também diamante não é mulher, né?! Vendo esta cal  pro Artur  e compro  um vestidinho para ela e ainda  vou dar uma calcinha, que ela anda sem, coitada! Caminhava matudando esses presentes.

O rio era do Bateeiro, por ser dos antigos faiscadores portugueses e negros fugidos para cá, bateadores.  Quanto diamante por aqui, meu Deus! Ainda deve ter muitos. Vou me desencantar. O burro arrenegava. Será que tem alguma diaba de pedra ou cavaco de pau debaixo do suadouro da cangalha? Olhou, e nada! Carga pesada? – não. Em vez de tocar o burro, passou a puxá_lo pelo “lático” (látego) do cabresto. Dificuldade é agora atravessar o córrego com o Cochilo problemando. Arregaçou a calça e puxou o burro dando muxoxo para espevitá-lo. O burro pisava em ovos ao entrar na água. Parou… deu mais uns passos. Parou, agora como obedecendo  àlguma voz estranha e oculta a seus ouvidos. Ah!, Oh!, Ih, Zé!… Pelas tripas do diacho! Não é que o bicho deitou no meio da água que foi molhando toda a carga? Zé desesperado abraçou o pescoço do burro, (Quitéria sorriu e ele não viu), tentando levantá-lo, a tempo de salvar a cal. Dentro de um minuto começou tudo a fumegar, esquentando, esquentando, quase queimando. Teve de correr para tirar toda a carga a tempo de a cal não tostar o lombo do animal e arregaçar seus braços ralados e doloridos. Extenuado, sentado na areia da praia, seus dedos esfarelavam grãos de areia sonhando ouro em pó e a manga verde da Maria.   Os olhos fechados viam como num cinema seus sonhos descerem líquidos, brancos, leitosos, na água do rio. Mais tempo, Maria passa-lhe a mão pela cabeça e o ar relampejou Quitéria distante, sumindo, sumindo, sumindo. Tesconjuro! Vaiderretro!

Amanhã queimo mais cal e o Cochilo e eu vamos ao comércio, Maria. O burro sacudiu fora alguma coisa, no ar, e transmudou de cor, infinito, num céu azul de nuvens brancas. Acordes de Dó Maior!

 (Texto calcado no livro “O Último Voo do Flamingo, de Mia Couto)

 

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