ARTIGO

NÃO CAIA NO BURNOUT!

quinta-feira, 23/02/17 16:02

O esgotamento profissional: o “burnout” segundo Dostoiewisk

É interessante notar que há mais de 100 anos o russo Fiódor Mikailovitch Dostoiéviski (1821/1881) já denunciava os aspectos negativos de se trabalhar em casa, pois indo a uma repartição, mesmo que você não queira, tem que trabalhar, tem que fazer o serviço, pois há chefias, controle, vigilância e punição, além de exigência de produtividade, cumprimento de metas, etc. Mas esta pressão termina com o final da jornada, quando saímos do trabalho enquanto espaço físico. Entretanto, em casa você vira seu chefe, internalizando o chefe externo, já que agora você é chefe de si mesmo, na sua própria casa, fortalecendo o superego, e a psicanálise revelou como o superego é severo com o ego, um dos motivos da cisão neurótica do sujeito.

No conto “Um coração fraco”, Dostoievski narra o drama de  um escriturário, um servidor público russo no império do TZAR, que, em caso de desídia, pode ser até fuzilado, pois o serviço público, registrando, mantendo e guardando processos e documentos é a base da burocracia e do controle do Estado sobre os cidadãos. Fazer parte do serviço público do império russo é uma honra, e as promoções vão depender da produtividade, da caligrafia perfeita, que não pode ser demorada, mas precisa, afinal não existia xerox, somente cópias manuais de documentos — o trabalho do caligrafo, do amanuense.

No livro, o personagem principal inicia o conto muito feliz confraternizando com um amigo, pois ficou noivo e queria comemorar. Mas toda a alegria do personagem logo cai por terra, quando ele confessa ao amigo, depois de dias de festa e alegria, já que é véspera de Natal e Ano Novo, que trouxe trabalho da repartição, recomendado pela chefia para ser concluído no período de festas natalinas, quando a repartição está fechada. O personagem recém-promovido quer mostrar serviço e assume o compromisso. Entretanto, a vida e o amor interferem no seu trabalho mecânico de copista, pois ele conhece uma mulher, se apaixona, fica noivo comemora com o amigo e quando percebe vários dias se passaram. Agora, em casa a alegria da lugar à ansiedade, medo e preocupação, afinal o serviço está atrasado, e mesmo sendo Natal e Ano Novo a tarefa deve ser cumprida, pois é seu compromisso com a chefia, com seu cargo e consigo mesmo.

Entretanto, o personagem, sentado na mesa de trabalho em sua casa, não consegue se concentrar tantas são a emoções vividas nestes últimos dias. Mas, para casar ele deve manter o emprego e para manter o emprego deve cumprir a tarefa, e ela esta muito atrasada. Como se concentrar em um serviço monótono, meticuloso, se sua mente e seu coração só pensam no amor e na amada Lisanka.

Surge o primeiro bloqueio: falta de concentração em casa para executar a tarefa. Os pensamentos estão focados na emoção do amor e ele fica horas na mesa sem conseguir começar o trabalho. O medo da punição gera angústia e ansiedade e ele, em um esforço sobre humano, tenta realizar a tarefa, lutando contra suas emoções e pensamentos amorosos. Começa a copiar os documentos sem parar, sem errar, sem dormir ou se alimentar.

Seu amigo, Arkaddi, o visita e fica preocupado com seu estado, pois há dias ele não dorme, não se alimenta, e mesmo assim o trabalho não rende. Ele fica preocupado, mas não consegue convencer o amigo de fazer uma pausa, este continua de forma frenética a escrever, copiando páginas e mais páginas, de forma automática, “a pena desliza”, diz o autor, mas o trabalho não acaba. Dias e noites se passam, a noiva se preocupa, o amigo também, mas nada faz Vássia sair do ritmo de trabalho que ele se impôs para conseguir executar a tarefa, mesmo sendo Natal e Ano Novo, que passam sem que o personagem saia de casa.

Esta exigência consigo mesmo traz consequências. É visível seu transtorno, mas ele continua copiando e trabalhando sem cessar. Então, quando o amigo resolve intervir dizendo que o trabalho está quase terminado, ele se desespera e mostra uma pilha de documentos que ainda tem de copiar. Estafado, sem dormir e comer ele se angustia e pensa nas consequências de não executar a tarefa, pois até ser fuzilado por motivo de desídia está contido como sentença, no estatuto do serviço público russo. E o medo, a preocupação e a responsabilidade são mais fortes que os apelos do amigo ou necessidade de descanso, afinal, a prioridade é o trabalho.

É um caso que hoje chamaríamos de burnout –  “(…) um estado de esgotamento físico e mental cuja causa está intimamente ligada à vida profissional” —, pois há um contexto psicológico ligado ao trabalho: a responsabilidade do trabalhador. O medo da punição é menor que a angústia de “não ter dado conta do trabalho”, sem perceber que a tarefa era uma meta muito exigente. E, de tanto trabalhar enlouquece, se dirige ao chefe em sua casa no início do Ano Novo para se justificar, pois está esgotado, e não deu conta da tarefa. Este servidor, que era um funcionário modelo, tranquilo, se apresenta ao chefe em tal estado de agitação e desespero, imundo, com uma barba mal cuidada, com uma fala desconexa e angustiado, que chora e pede perdão por sua “incapacidade” de dar conta do serviço.  Um médico é chamado e constata que ele enlouqueceu. Nesta época não havia o estudo mais aprofundado sobre o estresse laboral tampouco estudos sobre “burnout”, tampouco licença saúde por transtornos mentais, somente a divisão SANIDADE E LOUCURA.

Para Vássia, funcionário público do Império russo na época do tzarismo, a loucura pelo excesso do trabalho e o conflito entre suas emoções e a obrigação laboral o levam à exaustão e à loucura, era o fim de uma vida dedicada ao trabalho, e mesmo assim ele se culpa de não ter dado conta de realizar a tarefa. O hospício é seu destino, a saída da loucura do trabalho é enlouquecer de verdade. No final do conto a frase cruel e dúbia do chefe: “afinal nem era tão urgente…”.

Fica a dúvida: não era mesmo urgente ou foi imposto à Vássia como urgente, ou foi ele quem introjetou a urgência por conta própria? Bem atual, quando analisaremos no próximo artigo sobre a virtualização do trabalho no serviço público e o aumento do ritmo do trabalho.

*Arthur Lobato é Psicólogo/saúde do trabalhador

Arthur Lobato

É psicólogo da área de saúde do trabalhador. Integra a equipe da Comissão de Assédio Moral do SINJUS-MG. Participou de Congressos Internacionais sobre o tema no Brasil, Argentina e México. Sócio colaborador da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT).

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