ARTIGO

BRASIL E A CORRUPÇÃO: ORGÂNICA OU CIRCUNSTANCIAL?

quinta-feira, 11/05/17 18:24

Eu, pessoalmente, acho o tema relevante, sob qualquer aspecto de análise: 1. O caráter dominante das pessoas, enquanto éticos ou não; 2. A sociedade organizada que se forma a partir da aglomeração dessas pessoas, do ponto de vista da qualidade de seus poderes, ou seja, a qualidade dos atores que formam seus estamentos de decisão, na maioria consequência das escolhas das pessoas; 3. A educação ou, em sua ausência, a ação organizada para a mudança e seus métodos, radicais ou não.

Temos convivido, há tempos, com os chamados escândalos em nossa adolescente república. Aliás, do meu ponto de vista, proporcionalmente mais pródiga em escândalos do que se pudesse esperar de sua tenra idade, seja pela ótica da malversação indiferenciada dos recursos públicos, em todas as formas em que o Estado apareça como prestador ou contratante de serviços, seja pela frequência do surgimento de “autoridades” sem caráter, que em todos os chamados “poderes da República” buscam ou não se preocupam em distinguir entre o privado e o público, mais recentemente alcunhado como “mal feitos”.

Descritível mas inacreditável.

Descritível pela deseducação da maioria da população, aliada à carência de líderes que pudessem fazer a diferença; pela proliferação de agremiações políticas indiferenciadas em propostas; talvez pela fragilidade de caráter básico de nosso povo, ou, quem sabe, pela insensibilidade das escolhas típicas de nossa pós-modernidade.

Inacreditável pela extensão dos escândalos, que, dia após dia, veem se mostrando como absolutamente normais, “regras do jogo” democrático que se formou no país, na esteira do chamado “presidencialismo de coalizão”, indistintamente se à direita ou à esquerda.

Inacreditável também pela falta de escrúpulo em relação às cifras envolvidas, em um país carente em todas as frentes.

Fica-nos a impressão que a lógica é essa mesma. Na medida da impunidade, e contando sempre com a ausência de valores na pós-modernidade, os crimes contra a ordem pública tendem a crescer em escala exponencial, em quantidade, em diversidade e em valores.

Uma percepção que agrava tudo isso: não se percebem sinais de reversão, a não ser temporária. Pesquisas e pesquisas revelam que não há mais credibilidade suficiente. Isso é perigoso, não só porque esgarça a unidade social face aos valores e ao Estado, mas também porque aprofunda o isolamento dos indivíduos, face ao desencantamento com qualquer “coletivismo” de um lado, e o imperativo da sobrevivência, de outro.

A “lava-jato” pode ser um mero incidente, nesse contexto?

Tomara que não, mas já ocorreu na Itália, em que o desfecho da “mani pulite” foi o Berlusconi.

José Moreira Magalhães

É economista, com especialização em Planejamento Governamental; consultor em orçamento e finanças; e fiscal de tributos estaduais. Foi diretor de arrecadação, diretor do Tesouro Estadual e Diretor Financeiro do TJMG. Autor do livro "Desvendando as Finanças Públicas".

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