BONSAI

quarta-feira, 06/09/17 12:33

Autora: Lea Leda Schmidt Correa

“Um bonsai é uma réplica artística de uma árvore em miniatura. Consta de dois elementos: a árvore viva e o recipiente. Os dois elementos têm de estar em harmonia e a seleção do vaso apropriado para uma árvore é, por si só, quase uma forma de arte. A planta pode ser uma trepadeira, um arbusto ou uma árvore, mas naturalmente alude-se a ela como árvore. O recipiente é normalmente um vaso ou bloco de rocha interessante. Um bonsai nunca é chamado de árvore bonsai. A palavra já inclui o elemento vivo. Uma vez fora do vaso, a árvore deixa de ser um bonsai.”

Três vezes. E ainda mais uma vez. Quatro leituras.

Assim foi feita minha análise do livro “Bonsai” de Alejandro Zambra Infanta, escritor chileno, nascido em 1975 em Santiago. Primeiro romance do autor, também professor de literatura e poeta. Publicado em 2006. Tradução de Joselly Vianna Baptista. Editora Cosac Naify – 64 páginas.

Finda a primeira leitura do livro, eu me dizia:

– Não gostei. Esse livro não  disse a que veio. Enredo desconexo, sem pé nem cabeça. “Um argumento que daria, no mínimo , para um conto de duas páginas”.Começou pelo fim e terminou sem fim. Um livro curto, de leitura rápida, fácil de ler.

“Tudo começa assim. Tudo absolutamente tudo.

E que mais acontece? Nada, o de sempre. Tudo vai para o saco.”

Sou daquelas que lê, procurando encontrar-se  nas páginas do livro, através do resgate de  uma experiência pessoal reconhecida no texto, um sentimento ou emoção reavivado com a leitura, uma similaridade a outra obra lida.  Enfim , busco identificar-me com o livro, seja na história que narra, seja nos personagens que descreve.

“Quando leio , eu  busco encontrar-me nas páginas do livro.”

Bienal do Livro – SP 2017

Muitas vezes, essa identificação com o texto escrito, por pequena que seja, funciona como um gatilho que dispara meu processo pessoal de escrita. E, então, deixo-me levar por aquele desejo incontrolável de escrever, aquela pulsão a que se refere Gasmuri, no capitulo “Sobras”.

Porque também escrevo à mão, folhas e folhas de rascunho em caligrafia mal alinhavada e quase ilegível. Um frenesi que, a medida em que o texto é construído, leva-me a um estado de quase plenitude.

“Vivo  porque leio. Leio para continuar viva”

Bienal do Livro – SP – 2017

Na segunda leitura, busquei delinear o perfil dos personagens. Seis personagens, Júlio, Emília, María, Anita , Andrés. E Gasmuri.

“Personagens, que poderiam ser, simplesmente, Ele ou Ela, Huacha ou Pachocha, não têm nomes e,possivelmente, também não têm rostos. O protagonista é um rei ou mendigo, tanto faz ”

Cinco personagens  construídos sem profundidade, inexpressivos. Universitários jovens, dispostos a tudo, pseudo intelectuais, leitores inveterados, cuja vida acadêmica  incluía frequência às aulas, riscos de reprovação,  estudo em grupo na casa de colegas transformados em festas, música, bebidas, vodca, laranjas, embriaguez, maconha, sexo .

E até estudo de Sintaxe Espanhola.

Gente de palavreado chulo, vulgar e grosseiro. Extravagâncias sexuais, emocionais e, digamos, também literárias. Ânsia de viver tudo hoje , como se amanhã pudessem vir a perder tudo que fora conquistado ontem.

Completando o sexteto, Gasmuri, um escritor velho buscando encontrar alguém que fizesse a transcrição do seu novo livro, cinco cadernos Colón escritos à mão, como sempre fazia. Personagem que aparece no  capítulo ‘Sobras”, fala sozinho, faz perguntas, divaga sobre diversas conspirações políticas e literárias, enfatiza suas teorias sobre os relacionamentos entre jovens e velhos, contrata Júlio  para transcrever seu livro e depois sai de cena, com um telefonema para cancelar, secamente, o compromisso assumido com ele.   Reaparece, ligeiramente, nas páginas finais do livro, aliviado porque não ia morrer.

“É bom saber que não se vai morrer.”

Dos dois, o diálogo a seguir:

G – Você escreve à mão?

J – Responde que não, quase sempre usa o computador.

G – Então você não sabe de que estou falando. Há uma pulsão, quando você escreve no papel, um ruído de lápis. Um curioso equilíbrio entre o cotovelo, a mão e o lápis.

J – Fala, mas não se ouve o que fala.

G – Você  escreve romances, esses romances de capítulos curtos, de 40 páginas, que estão na moda?

J-  Não. O senhor me aconselha a escrever romances?

G -Olhe só que  perguntas você faz. Não estou aconselhando nada, não  dou nenhum conselho a ninguém. Você acha que marquei encontro com você nesse café para lhe dar conselhos?

Realmente, Júlio e Gasmuri se encontraram em um café.

Conversaram. Gasmuri falou do seu livro,”talvez seu livro mais pessoal. Vou resumi-lo um pouco para você: ele fica sabendo que uma namorada de sua juventude morreu. Como faz todas as manhãs, liga o rádio e ouve no obituário o nome da mulher. Dois nomes e dois sobrenomes.”

Discutiram o titulo ainda incerto do livro.

Júlio, encantado com o velho escritor,  contentou-se em ser, nessa história, um personagem secundário, cujo papel consistiria, apenas, em  transcrever o novo romance de Gasmuri ainda sem nome e que ele, Júlio, sem efetivamente conhecê-lo, intitula  “Bonsai”, editado  a final, com o nome de “Sobras.”

Na verdade, o encontro com Gasmuri e suas perguntas estranhas  marcaram o momento em que começou a fantasia literária de Júlio. Imaginou-se já trabalhando com Gasmuri , embora aguardasse,  ansioso, a resposta sobre sua efetiva contratação.

Resposta que veio negativa, porque Gasmuri encontrara alguém que faria o trabalho  de transcrição por 40.000 pesetas. Ao contrário de Júlio que pedira 100.000 e que – oh ironia! estava, na verdade, disposto a trabalhar de graça para Gasmuri só pelo prazer de compartilhar seu convívio. Só para tomar café e fumar cigarrilhas com Gasmuri. Só para entabular conversa agradável e… difícil com Gasmuri. Conversa que, às vezes, era um monólogo.

A resposta negativa de Gasmuri,  entretanto, não pôs fim ao processo fantasioso de Júlio. Ele continuou. Disse a Maria que fora contratado e começaria logo a trabalhar.

Estaria ele querendo impressionar María? Não é o que penso. Acredito que Gasmuri ativara a imaginação de Júlio e tivera o dom de despertar o escritor latente nele. Ainda que estivesse querendo impressionar Maria, vejo mérito nisso, considerando-se que Júlio, um artista em gestação, no decorrer da história, esboçou dois desenhos (uma Mulher, misto de Emília e María, e uma Árvore no Abismo) escreveu um livro e fez um bonsai.

Em sua fantasia, Júlio começou a trabalhar em um domingo. Foi para o Parque Florestal. Levou 4 cadernos Colón e ali, com caligrafia, fingida começou a escrever. À noite, continuou. Na segunda manhã, já terminara o primeiro caderno. Manchou parágrafos. Derramou café. Espalhou  marcas de cinzas no manuscrito. No meses seguintes, de manhã, escrevia à mão. À tarde, transcrevia o romance que já não se sabe se é alheio ou próprio. Fantasiou ainda com Maria que Gasmuri queria continuar o trabalho juntos, embora Júlio duvidasse ser capaz de aguentar as  indecisões, as grosserias, a tosse, os pigarros e as teorias do velho escritor.

A fantasia de Julio culminou com o texto final do seu livro. Chamou-o “Bonsai”. Manuscrito dado de presente a María, a segunda mulher que amou com seriedade e que partiu também para Madri como também partira Emília, a outra jovem amada, dos seus tempos de universitário. Relacionamentos sérios de Júlio que “não se escondia das mulheres, mas que sabia  estar condenado à seriedade e tentava, obstinadamente, torcer seu destino sério.”

Não sei o que desencadeou o processo criativo de Júlio. As perguntas de Gasmuri? A resposta negativa de Gasmuri?

Qualquer resposta seria mera hipótese. Para mim a inspiração é um processo interno e pessoal. O fato é que Júlio começou a escrever. Seu encontro com Gasmuri foi forte e marcante. Funcionou como um gatilho disparando seu processo criativo.

Sei o que me faz escrever. Já disse. Descobri que minhas fantasias literárias começam, quando me identifico com um livro ou trecho de um livro. As vezes, até um parágrafo. E quando me acho nas páginas de um livro, quero sair de lá. Quero partilhar minha descoberta. Meus esforços para libertar  aquelas imagens presas entre as páginas  que leio  resultam em textos escritos por mim.

Não pretendo alçar-me à condição de escritora .Deixo isso para Alejandro Zambra  e outros autores. Também não sou poeta ou professora de literatura. E, muito menos, ouso fazer criticas literárias de livros cujos autores respeito, porque eles fizeram seus  bonsais, escrevendo.

Prefiro dizer que gosto ou não de um livro, procurando, é claro, justificar minha escolha.

Sou uma leitora quase insipiente e uma escritora incipiente. Sou como Júlio: “ensaio formas fingidas de ser escritora.”

Tão limitada que precisei de várias leituras do livro “Bonsai” de Alejandro Zambra, para encontrar as respostas para minhas perguntas sobre a obra.

– Qual o sentido desse livro?

– Que fez dessa obra escrita literatura?

– Por quê  não consigo alcançar os critérios usados para inclusão desse livro  entre as obras merecedoras de uma prêmio literário?

Definitivamente eu não sei ler, concluí.

Com essa constatação frustrante, encerrei a  terceira leitura do livro “Bonsai”.

Fui dormir. Com a sensação de ter lido algo cujo sentido não apreendera e não assimilara. Um livro com boas referências, um livro aceito pela mídia, um livro traduzido em vários línguas e adaptado para o cinema. De um escritor chileno. Porque gosto de escritores chilenos. E daí?

Dizem que o travesseiro é um bom conselheiro.

Noite iluminada. Acordei de madrugada. Um pergunta martelava meus ouvidos:

– Como você não viu isso?

Naquele momento de iluminação, naquele insight, eu me encontrei naquele livro. Eu, finalmente, me vi nas  entrelinhas daquele texto de poucas  páginas.

Como eu não percebera que, nesse livro do escritor chileno, o  enredo, a construção de personagens, as teorias expostas não eram o mais importante? Também não era o mais importante o requinte e a delicadeza  das palavras e a desenvoltura no emprego da língua como ferramenta  para trabalhar as ideias .

Duas afirmações: “Escrever é como fazer um bonsai!”e “Fazer um bonsai é como escrever”  disseram tudo, resumiram  o intuito de Alejandro Zambra  ao  escrever o livro: mostrar, subliminarmente, o processo do escrever. E do  jeito  como eu o percebo dentro de mim!

Li o livro pela quarta vez. Sob outra óptica.

Penitenciei-me, então, da culpa (?) de ter sugerido a leitura de “Bonsai” na “Roda de Leitura”, levada, unicamente, pela atração exercida pelo seu título. Mais do que um título.Fora intuição. Esse livro tinha a ver comigo! Nada tinha a ver com minha afinidade à cultura japonesa e nem com o charme dos bonsais. Eu pouco sei de bonsais…

Não sou Alejandro Zambra, diligente leitor de manuais, revistas especializadas e livros técnicos sobre o cultivo de bonsais. Não sou Júlio que, atraído por eles, gastou parte do pouco dinheiro que tinha, comprando manuais e revistas especializadas no assunto para documentar-se,  debruçando-se sobre eles para  decifrá-los, aprendendo a cuidar de bonsais, comprando, finalmente, sementes e ferramentas para fazê-los. Invadido por um vislumbre de plenitude, esperando, com ansiedade cada dia seguinte para prosseguir no seu projeto: “Árvore no abismo?”

Ambos, Alejandro e Júlio,  fizeram seu Bonsais,

Eu desejo fazê-los.Quero também ter um bonsai. Também quero escrever.

Tenho dentro de mim, no meu imaginário, sementes de trepadeiras, arbustos e árvores para fazer meus bonsais. Garimpo, cuidadosamente, nos livros  que leio, palavras, frases ou trechos que me remetam a essas sementes. Valho-me dos recursos da escrita para semear essas sementes, cuidando para que meus bonsais sejam feitos em recipientes apropriados, (aqui entendidos como folhas de papel em branco), ora com  a  profundidade de um vaso, ora com  a aridez de um bloco de rocha, conforme determinem as circunstâncias do meu escrever.  Dou-lhes, pacientemente e exaustivamente, ao som do áspero arranhar do lápis sujando as folhas de papel onde escrevo e que deixam de ser em branco, formas que me agradem, sobretudo ao coração. Dou-lhes o trato que entendo necessário para que sejam harmoniosos e bonitos.

Move-me a expectativa  de que meus  bonsais sobrevivam e permaneçam,  desafiando  os efeitos do tempo. Move-me a constatação de que não estou morrendo, porque ainda estou escrevendo. Move-me a esperança de que eu viva mais para escrever mais e de que  meus textos, lidos sabe-se lá por quem, sejam um presente.

BONSAI.

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