AMBIENTE DE TRABALHO

ARTIGO: DIA NACIONAL DE COMBATE AO ASSÉDIO MORAL

terça-feira, 02/05/17 14:25

NO DIA NACIONAL DE COMBATE AO ASSÉDIO MORAL, ESPECIALISTA FALA SOBRE CONFLITOS NO TRABALHO

* Por Arthur Lobato

Quando pensamos nos conflitos no trabalho, que muitas vezes evoluem para o assédio moral, devemos analisar a natureza humana, afinal somos seres do conflito, como já diziam os filósofos e os reformadores religiosos. Um dos textos mais antigos do mundo, o hindu Bhaghavad-gitã, mostra a luta do guerreiro Arjuna contra outros guerreiros, mas, principalmente, contra si mesmo. Neste texto milenar encontramos a definição de Arjuna sobre a mente dividida, uma das características do ser humano: “A natureza da mente é vacilante, às vezes ela aceita algo e imediatamente rejeita a mesma coisa. O aceitar e o rejeitar constituem o processo da mente”.

Este pensamento que revela o ser clivado, dividido, tão bem analisado por Freud, encontramos também nos textos de um dos fundadores do cristianismo, o apóstolo Paulo, que escreveu na carta aos romanos: “Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero, isso não faço, mas o que aborreço isso faço”.

Assim, temos o primeiro tipo de conflito, o conflito intrapsíquico, ou seja, conflito entre eu e eu mesmo. Uma das causas do conflito intrapsíquico é a realidade da morte, que não podemos negar, mas que buscamos através da religião, da arte, da loucura, subterfúgios para escapar desta dura realidade, nossa mortalidade, esse conflito entre viver e morrer, que gera o pânico, o desespero, a ansiedade, a depressão e este conflito só termina com nossa morte. Entretanto, segundo as religiões, ainda seremos julgados por nossos atos e pensamentos, e assim, vivos ainda imaginamos nosso conflito pós-morte.

Se somos seres do conflito, como conviver um com o outro?

A resposta é o poder absoluto do estado sobre o indivíduo, fruto do pacto social, como Thomas Hobbes escreveu em sua obra “O Leviatã”. O estado na pessoa do soberano e de suas instituições será mais forte e poderoso que o indivíduo e julgará e punirá os conflitos entre seus súditos. Mas nos conflitos entre estados, que levam às guerras, conflito entre nações, que são na realidade conflitos entre seres humanos de países diferentes, não é mais a violência de um indivíduo, mas a violência da comunidade. Afinal, por que tamanha violência de um ser humano contra outro ser humano? Por que é tão difícil “amar o próximo como a ti mesmo”?

Freud em sua obra “O mal estar na cultura” já avisava: “fora da civilização somente existe a barbárie”, ou seja, ou o ser humano reprime seus instintos agressivos ou uma sociedade realmente humana jamais existirá, pois como disse o psicanalista, fome e sexo são nossas pulsões primárias, e para satisfazê-las o ser humano realiza todas as transgressões, principalmente, matar, eliminar quem se opõe ao seu desejo, por isso a sociedade é construída no recalque destas pulsões primárias. Freud destaca em sua obra o “conflito de opinião”, que ocorre entre pessoas, e que pode levar à agressão verbal, agressão física e, no ambiente do trabalho, evoluir para o assédio moral.

No nosso campo de trabalho, a saúde do trabalhador, é muito comum no ambiente de trabalho os conflitos interpessoais, conflitos entre colegas de trabalho, por diversos motivos, principalmente os conflitos de opinião. É o conflito interpessoal, conflito entre duas ou mais pessoas.

Se somos seres do conflito tanto ontogenicamente (o indivíduo), como filogeneticamente (a espécie humana), o que diremos nos conflitos que acontecem no trabalho? E o que dizer do serviço público, onde concursados de diferentes idades, formação cultural, religião, gênero, devem trabalhar juntos e conviver entre si por anos e anos?  Só vendo o outro ao mesmo tempo como meu semelhante, mas respeitando sua alteridade, suas diferenças, características da subjetividade humana e praticando a tolerância podemos sobreviver enquanto espécie.

Por isso, é importante que saibamos que os conflitos interpessoais no trabalho são normais, pois o conflito é explícito, diferente do assédio moral que é feito de forma oculta. Dejours, fundador da psicodinâmica do trabalho, a qual analisa a relação de prazer e sofrimento no trabalho, afirma que o conflito é positivo, quando explicitado, debatido e que as partes envolvidas aceitem o que vai ser melhor para o trabalho a partir da análise do conflito e propostas de solução.

O mesmo não pode ser dito do assédio moral, pois há uma intenção de prejudicar, com atos, gestos e palavras direcionadas contra uma pessoa, atos e palavras feitas de forma dissimulada, ambígua, gerando dúvidas na autoestima e na capacidade laboral do assediado. Importante no assédio moral é como o modelo de gestão e a organização do trabalho são componentes deste processo. Um modelo de gestão que pregue a competitividade e o individualismo transforma colegas em adversários, e muitas vezes vale tudo para ter uma promoção ou um cargo ou função comissionada.

Sempre é bom lembrar o que é assédio moral: “é uma conduta abusiva, intencional, frequente e repetida, que ocorre no ambiente de trabalho, e que visa diminuir, vexar, constranger, desqualificar e demolir psiquicamente um indivíduo ou um grupo, degradando as condições de trabalho, atingindo sua dignidade e colocando em risco sua integridade pessoal e profissional.” Freitas, Heloani, Barreto (2008)

Quando lutamos contra o assédio moral, trabalhamos com a prevenção e com um processo educativo onde é importante lidar com conflitos, respeitando o outro, para também ser respeitado. Queremos dar visibilidade a este inimigo invisível no ambiente no trabalho, combater o psicoterror, a gestão por stress, e a organização de trabalho que favorece o adoecimento dos trabalhadores, seja por permitir ou não coibir o assédio moral, esta é uma luta política do SINJUS-MG, há mais de dez anos como referencia no combate ao assédio moral.

O SINJUS oferece ao sindicalizado o plantão de combate ao assédio moral, toda terça-feira, com a participação de um advogado, de um psicólogo e de um diretor do Sindicato. Dentro do Projeto Saúde do Trabalhador, há o atendimento psicológico individual toda quinta-feira.

Importante também é o trabalho da Comissão Paritária/Assédio Moral criada pela lei 116/2011 e regulamentada no TJMMG.  É uma instância interna do Tribunal muito útil para medições de conflitos no trabalho, contribuindo assim para um ambiente saudável no trabalho.

*Arthur Lobato é psicólogo/saúde do trabalhador.

Atendimento individual para servidores sindicalizados toda quinta-feira.

Arthur Lobato

É psicólogo da área de saúde do trabalhador. Integra a equipe da Comissão de Assédio Moral do SINJUS-MG. Participou de Congressos Internacionais sobre o tema no Brasil, Argentina e México. Sócio colaborador da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT).

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