ARTIGO

A utopia de uma sociedade igualitarista segue viva?

quarta-feira, 01/11/17 17:42

O historiador Erick Hobsbawn definiu o século XX com um século breve. Em sua obra “A Era dos Extremos” afirma que o “o mundo que se esfacelou no fim da década de 1980 foi o mundo formado pelo impacto da Revolução Russa de 1917”. O autor destaca dois eventos históricos de grande magnitude no século passado e que teriam definido a sua brevidade: a primeira grande guerra (iniciada em 1914) e a queda da antiga ordem mundial bipolar, em 1992, com o esfacelamento da União Soviética.

A Revolução Russa teve lugar em meio à Primeira Guerra. Foi um evento único na história da humanidade. As grandes revoluções sociais ocorridas anteriormente estavam relacionadas às classes que, ao alcançar a supremacia econômica na sociedade, não detinham o poder político. As revoluções francesa, inglesa e americana trataram de colocar as coisas no lugar, estabelecendo o poder político da burguesia nacional nesses países e instaurando um regime político republicano. Mas nos três casos citados, as classes hegemônicas economicamente eram minoria na sociedade.

A revolução de Outubro de 1917 teve outra característica e o que parecia impossível, tornou-se inevitável. A destituição da nobreza do poder e, posteriormente, de um governo provisório de coalizão entre distintas frações políticas e sociais, foi acompanhada da criação de um novo tipo de governo, em que a maioria da população estava representada em conselhos (os chamados sovietes) que reuniam as camadas sociais mais pobres da sociedade: os operários, camponeses e soldados. Era, de fato, uma nova experiência republicana e democrática. Pela primeira vez as maiorias sociais detiveram o poder político e econômico. A Comuna de Paris (1848) teria cumprido o papel de um ensaio histórico desse exercício do poder, mas a experiência não durou além de pouco mais que dois meses.

As conquistas sociais para a população russa, no período subsequente à revolução, são inúmeras. Embora cercada por exércitos, imersa numa guerra continental e enfrentando uma guerra civil interna, a nova forma de organização da economia, com planejamento estatal e o fim da propriedade privada dos grandes meios de produção, possibilitou avanços sociais importantes para a maioria do povo, em poucos anos, superando os séculos de atraso do sistema feudal e da dominação czarista.

E não só avançou a distribuição da renda, mas também das terras para os camponeses, houve melhorias consideráveis no acesso à saúde, ao saneamento, à educação, às artes e à cultura. A eletrificação do país e o crescimento da indústria foram elementos decisivos para esse rápido desenvolvimento. O passado de fome e falta de trabalho para a maioria da população ficou para trás. Enquanto o mundo vivia uma era de catástrofe, nas palavras do historiador Hobsbawn, que se estenderia até a Segunda Guerra, a jovem república soviética, ao contrário, batia recordes de crescimento e produtividade, com melhorias surpreendentes dos indicadores sociais.

Não são pacíficas as análises políticas acerca dessa quadra da história da humanidade e não é objeto desse artigo destrinchar as contradições inerentes ao regime político soviético, embora seja sabido que, seja pelas condições objetivas do país, seja pela política de suas elites dirigentes, a forma inicial bastante democrática do novo regime político cedeu lugar a um regime autoritário.

Mas o que, me parece, torna fundamental relembrarmos essa experiência histórica é o fato de vivermos numa sociedade em que o discurso individualista, da competição de uns contra os outros, do desrespeito às diferenças, do egoísmo e do mérito alcançado apenas solitariamente, em que ausentes se encontram exemplos de solidariedade e uma cultura de igualdade, é aparentemente hegemônico.

O exemplo histórico simbolizado na odisseia russa, em seu primeiro centenário, de que a humanidade e, principalmente, as classes que dependem do trabalho para a sua sobrevivência, podem superar a barbárie imposta pelas guerras, pela fome e pela miséria de um sistema socialmente injusto, alimenta a utopia de uma humanidade liberta de todas essas chagas, em que possamos desfrutar plenamente as potencialidades humanas. Por isso, nada mais justo do que relembrar e saudar esse importante evento histórico da humanidade.

Cacau Pereira

É advogado, com graduação e pós-graduação em Direito Público pela PUC Minas e especialização em previdência complementar. Coordena o Instituto Classe de Consultoria e Formação Sindical e atua no movimento sindical desde 1996.

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